2005/07/16

Dezasseis horas depois.

Bom, dezasseis horas depois.

Já me fumaram para cima, já me desafiaram. Já me envolvi em discussões políticas e sociológicas, como qualquer português gosta, e nada. Nem um cigarro, nem uma mísera passa. Estarei doente?

Não há dúvida que como mais. Convém ter cuidado... Não quero tornar-me no primeiro bisonte ex-fumador do planeta.

Missão cumprida. Noite de copos ul-tra-pa-ssa-da.

Afinal mando eu aqui, não o meu cérebro doente.

Beber ajuda.
Baixa os níveis de ansiedade, provavelmente substitui-se bioquimicamente à nicotina e seus derivados, no cérebro.

Em período de ressaca (pouca, não estou assim tão bêbado) a ver o que a manhã trará.

2005/07/15

Oito horas depois.

Oito da noite; ou da tarde, porque é Verão.

Oito horas sem fumar. Perturbações da visão, tonturas. Necessidade frequente de fechar e esfregar os olhos.

Fazendo a pé os percursos habituais, reparo subitamente em pormenores na paisagem que se me tivessem perguntado antes, diria nem sequer existirem, quanto mais estarem lá.

Subitamente, uma árvore. Sempre esteve lá no mundo, mas nunca tinha reparado nela.

Talvez o cérebro, tal como um computador (sofisticado) necessite de fazer reboot e, com esta merda toda, se esteja a reorganizar.

Tive de sair para beber um café. Fiquei melhor. Não fumei, é claro. Antes disso tinha dormitado meia hora. Acordei com tonturas.

No café, analisei um problema de física e - surpresa - a velocidade de raciocínio pareceu-me superior.

Provavelmente, o problema está mal resolvido e eu sofro também de delírios, manifestações maníaco-depressivas (até agora não; só as de grandeza), causadas pela abstinência.

Hoje tenho um daqueles jantares de copos. Vai ser um desafio. Veremos como tudo se processa.

As primeiras cinco horas.

E já lá vão cinco horas seguidas sem fumar.

O tempo de uma viagem de avião. Trivial. Mas julgam que é fácil?

Não, não é. Perturbações da visão; espécie de sensação de euforia visual, como se os circuitos neuronais que implicam a visão, estivessem sobrecarregados de estímulos.

Alteração do cálculo do risco, como se de repente tivesse ficado mais corajoso e destemido.

Os dois primeiros berros com os miúdos. Desgraçados, não perceberam bem a razão de tanta energia acústica em desproporção; desadequada. Senti um esvaziamento de tensão. Desculpem e obrigado, filhos.

Dificuldade em manter a concentração, a menos que o assunto seja este, razão pela qual consigo verter estas observações.

Difícil elaborar raciocínios abstractos, sobretudo de natureza matemática.

Necessidade de produzir esforço muscular. Necessidade de autocontrolo superior para manter a integridade e a coordenação automotora.

Agora, que o fim da tarde se aproxima, a vontade de fumar está gradualmente a transformar-se numa sensação de fome, como se não tivesse comido nada durante o dia (almocei, é claro). Bebi três cafés e não fumei em nenhuma destas ocasiões.

Como para não fumar. Não comer ou não fumar é insustentável. Tenho de comer para não fumar.

Um bolo após: passou a vontade de fumar e também de comer.

Durante toda a tarde senti um peso nos olhos, indicando uma alteração da percepção. Sinto algum sono.

A coisa parece ir apertar. O cérebro é uma máquina diabólica. Tudo vai fazer para ter a sua dose de nicotina e vai jogar implacavelmente com o seu controlo sobre o sistema nervoso central e ramificações nervosas por todo o corpo.

Filho da puta, vai-me fazer passar um mau bocado.

Muito bem, vejamos quem é o detentor último da vontade. Se a máquina biológica; se o homem que quer.

Doente.

Chega sempre aquele momento em que finalmente se percebe; estou doente, não sou livre. Não consigo deixar de fumar.

É lá para os quarenta, quando o corpo se queixa para além daquilo que seria expectável ou permissível de modo próprio.
Quando respirar se torna numa luta, quando pensar é manifestamente impossível porque o oxigénio tarda em chegar ao cérebro, quando um pequeno passeio até ao café já cansa.

O meu dia chegou hoje. Logo depois de comprar três maços. A minha conta diária. E pouco há a fazer.
Estou doente, é tudo.
Não há volta a dar. Se não fumar vou sofrer, se fumar vou morrer.
Talvez prefira sofrer. Embora, em certas alturas da vida, morrer também não pareça má ideia.
Romantismos; é claro .
Ilusões cerebrais para dar ao vício a possibilidade de continuar. O cérebro, a máquina amiga do homem, não está em condições, apresenta anomalia, avaria. Até do que penso vai ser preciso desconfiar. O corpo entrou em conflito interno.
É o cérebro ávido de nicotina, querendo eternizar os circuitos neuronais em que se funda o hábito, em combate, pela justeza dos seus direitos, contra o resto do corpo, incapaz de sintetizar os efeitos secundários dos milhões de cigarros que fazem uma vida.

E eu no meio, a aturar os dois. Puta que os pariu. Cérebro e corpo. Deus devia ter feito mais subtil a natureza das coisas, para quê cérebro, para quê corpo, para quê limites e restrições. A menos que haja um plano ético mais profundo. Sofrer para vencer?
Confusão..., Lá está o cérebro, o eu e o não-eu, simultaneamente, a contorcer-se como um verme ferido, a fazer ruído; o ruído da mente.

Dissociar-me do próprio cérebro - da própria mente - aí está um desafio interessante. Invocar a vontade como substância primeira e última daquilo que é ser.

Aí vai; vamos a isso.

Não fumo nem há uma hora e já estou a sofrer como o diabo. Extraordinário.
A ansiedade, uma expressão interna no peito, pulsa constante. Sinto calor, desconforto.

Já não estou cansado. Sou poderoso, eterno. O cigarro chama.
O corpo afinal cumpre. regenera-se, como o escravo obreiro das vontades omnipotentes da mente.

Ah, cérebro vil. Lá está ele a iludir-me com as suas construções logóicas complexas, de uma lógica aparentemente irrefutável e, por vezes, mesmo irrefutável.

Desta vez vou ensinar-te. Ensinar-te quem manda, quem comanda. Se tu, se eu.